Lembranças

Pau-de-arara: transporte da época.

"Lembro-me das viagens feitas em caminhões chamados "pau-de-arara" ou de "mangaeiros". Neles eram levados cargas altíssimas de jacás e eu lá em cima, amarrado por cordas, com duração, às vezes, de três dias, dormindo nas pensões do caminho. Nesta época não havia estradas nem comunicação, razão maior das preocupações dos pais.
Recordo muito bem da noite em que chegamos pela primeira vez a Teresina, com pouco dinheiro e sem pensionato certo para morar. Passamos a noite procurando o endereço de uma pessoa amiga, de Esperantina, Zeferina. Somente no começo do dia seguinte encontramos a sua residência e foi esta família de pessoas pobres que nos acolheu por muito tempo. Que o bom Deus a tenha no bom lugar!

Casa de Dona Zeferina, em Teresina.

Naquela época, comprávamos lata d'água para tomar banho. Eu tinha que puxar água do poço, levar nos ombros as duas latas para casa onde eu morava, a dois quarteirões, e tomava banho no banheiro do quintal cercado por talo de coco. A minha merenda, dos meus irmãos e primos, era rapadura, batida, alfenim e o refresco de abacate e pão do bar do Zé Deó, às 23 horas, quando voltávamos o Liceu Piauiense. Nos finais de semana, à noite, na praça Pedro II, ficávamos conversando e lançando olhares para as jovens que passeavam em grupos. Quando o apito da Usina Velha tocava, os rapazes desciam, uns em direção à zona boêmia da rua Paissandu e outros em direção ao famoso "Clube dos Diários", berço da elite teresinense e onde, muitas vezes, humilhado, eu não tinha a oportunidade de entrar. Aconteceu certo dia de ir com a namorada até a entrada do clube, e não tendo coragem de enfrentar o porteiro Marcelino, dei uma desculpa de ir comprar cigarros e não retornei mais àquele local.

Clube dos Diários: espaço da elite teresinense.

Tenho lembranças da despedida do meu pai Raimundo Siqueira, quando veio a falecer, da necessidade de alguém assumir o seu lugar em São João da Varjota. Até que tentei, ajudando o povo da minha terra como pude. Impossível para mim era assumir pessoalmente o seu lugar de político da região, pois a minha escola consumia todo o meu tempo e atenção e dela retirava o sustento para minha família. Tentei conseguir alguém para nos representar, mas não consegui. Então devolvi a Deus esta função. Quanto a mim, estarei pronto para servir a esta gente, principalmente aos mais humildes."

Igreja São João Batista: Onde frenquetava as missas e festejos em São João da Varjota-PI.
Nesta casa, dos pais adotivos, Clementino morou até os 11 anos de idade.